Dado da OMS foi apresentado em reunião da Frente Parlamentar em Defesa da Saúde Mental A cada 40 segundos, alguém no mundo comete suicídio. Especialistas afirmam que a pandemia do coronavírus age como catalisadora do processo latente de adoecimento mental existente na sociedade. Entretanto, até o momento, não foi constatado aumento no número de suicídios durante a pandemia. A maior parte dos suicídios é cometida por enforcamento e 98% dos casos estão ligados a distúrbios psiquiátricos não tratados ou com tratamento incorreto.

Essas e outras informações foram apresentadas em atividade da Frente Parlamentar em Defesa da Saúde Mental em alusão ao Setembro Amarelo, mês dedicado ao debate sobre a prevenção ao suicídio. O evento para discutir os diversos aspectos sociais e clínicos que envolvem a temática aconteceu nesta quinta-feira (23), em reunião híbrida.

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O colegiado da Assembleia Legislativa, presidido pelo deputado Dr. Emílio Mameri (PSDB), convidou especialistas de várias áreas para expor o tema e os desafios enfrentados. 

Veja as fotos da reunião

Políticas públicas

O deputado Mameri informou que, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio no mundo. São cerca de 800 mil casos registrados anualmente. Já no Brasil, ocorrem 13 mil suicídios ao ano. “Com a pandemia e o distanciamento houve um aumento considerável das doenças relacionadas à saúde mental”, registrou o deputado.

A ausência de políticas públicas que atendam a área da saúde mental foi reiterada por Mameri. Ele disse que é preciso “valorizar a atenção básica, a importância da rede, dos protocolos, agir de maneira efetiva, dando o devido valor à doença mental e aos problemas psicossomáticos. Nós temos de ter uma rede completa (multidisciplinar), não adianta uma rede pela metade”, disse. Dr. Mameri enfatizou a necessidade de o paciente ter continuidade no tratamento depois de sair de um momento de crise. 

Medo

O impacto da pandemia na saúde e o avanço das doenças mentais foi o tema abordado pela médica psiquiatra Lícia Colodete. Para ela, a pandemia tem influenciado na saúde mental da população. “De repente, um universo novo se apresentou, se abriu para todos nós, com toda a sua força, sua magnitude e mistérios. Como se todos os tempos se concentrassem em um só, sem linearidade e sem sequência. O nome disso é caos. Pessoalmente, em conversas com pacientes e com amigos, fiquei com a impressão de que cada pessoa imaginou uma pandemia à sua maneira”, relatou. 

A psiquiatra observou que o que era protegido, subliminar nessa área médica, de repente, transbordou e tomou proporção assustadora. Para ela, essa situação traz um grande custo psíquico. “Pequenas coisas como higiene, ir ao supermercado, cumprimentar um conhecido, passaram a demandar da gente muita tensão, concentração e cuidado. O que não dizer então do isolamento físico, social, o medo da contaminação, do desemprego, da morte”, enumerou Colodete.

A intensidade alta de estresse pode predispor ao adoecimento psicossomático, explicou. “Durante a pandemia, os acessos aos serviços de saúde mental foram interrompidos, e o que já era problema, atingiu um nível dramático”. 

Colodete também falou sobre outros fatores gerados pela pandemia, como luto, estresse pós-traumático, síndrome de Burnout, depressão, ansiedade e o aumento do consumo de álcool e drogas. “A impressão é que a gente está vivendo uma pandemia de transtornos mentais”, analisou. 

A psiquiatra concluiu que a pandemia age como catalisadora do processo latente de adoecimento mental existente na sociedade e enfatizou que a saúde mental precisa receber atenção especial na pauta da saúde pública, e que são necessárias medidas de prevenção e a integração de serviços especializados. 

Sobre suicídio, a médica informou que acontece uma tentativa a cada três segundos no Brasil e 98% dos casos ocorrem devido à doença psiquiátrica não tratada.

Adolescência

A psicóloga Fernanda Freitas Miranda abordou o impacto das doenças relacionadas à saúde mental entre os jovens e a importância do trabalho realizado dentro das instituições de ensino. 

Para ela, apesar de os problemas em saúde mental não serem novidade entre os jovens, tem havido um aumento que se agravou com a pandemia. Ela informou que entre 2015 e 2018 houve um aumento de 5% do índice de suicídio no Brasil, enquanto em outros países tem caído o número de casos.  

Ela explicou que o adolescente é um fenômeno social. Ele passa por mudanças físicas, emocionais, cognitivas e sociais, escolha da carreira e mundo afetivo. Os transtornos mentais aparecem nessa faixa etária, principalmente a partir dos 14 anos, disse.

A psicóloga acentuou que os jovens em situação de vulnerabilidade social têm maior risco para a existência de doenças mentais. Ela também citou uma pesquisa com 16 mil adolescentes em todo o país que constatou que a exposição às telas, inversão de horário de sono e questões de gênero estão relacionadas a sintomas depressivos.  

Miranda assegurou que a maior parte dos adolescentes não tem diagnóstico da doença e tampouco tratamento. E que não aumentou no mundo o número de suicídios durante a pandemia. “Mas ainda não sabemos o que vai acontecer até o término da pandemia”, alertou. 

Ela também cobrou investimentos na prevenção e tratamento da saúde mental por parte das instituições de saúde, escolas e igrejas, com projetos de acolhimento, psicoeducação e projeto de vida, finalizou. 

Mudança de paradigma

O bombeiro militar Vinícius Marques Pedroni palestrou sobre os desafios nos resgates de suicidas e suas formas de abordagem. Ele informou que a abordagem evoluiu. Antes, o bombeiro não estava preocupado em conversar com a pessoa que estava tentando cometer suicídio. A ação era de resgate fulminante. “O nosso foco era tão somente despistar, chamar a atenção da vítima para distraí-la, enganá-la e retirá-la à força da situação em que ela estava”, explicou.

Hoje, o bombeiro procura dialogar com a vítima, sendo o foco o atendimento técnico, ouvir a dor da pessoa que está cometendo suicídio. “Sou capitão Pedroni. Estou aqui para te ouvir”, é a frase inicial, segundo ele.  

Capitão Pedroni afirmou que se trata de quebrar o paradigma de abordagem. Agora é o diálogo que prevalece para que a pessoa saia da tentativa por si própria. Pedroni afirmou que essa mudança é respaldada pelo conhecimento multidisciplinar no treinamento do bombeiro.

Ele ainda relatou que mais da metade (53%) dos suicídios ocorrem por enforcamento, seguido de envenenamento (11%) e arma de fogo (10%)

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