Investimentos
No tocante aos investimentos, o desempenho de cada país evidencia uma distribuição bastante desigual. Segundo o IA Index, a partir de bases como Crunchbase e Capiq, do total aportado em projetos envolvendo essas soluções técnicas entre 2018 e 2019, mais de US$ 30 bilhões foram em iniciativas nos Estados Unidos. Outros US$ 25 bilhões apoiaram empresas e instituições chinesas. Em terceiro lugar aparece o Reino Unido, com menos de US$ 5 bilhões. O ranking é dominado por nações da América do Norte, Europa e Ásia. Do grupo de 27 países, o Brasil aparece em último, com desempenho próximo do zero. Segundo relatório da Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação (Brasscom) sobre perspectivas de investimento do setor entre 2018 e 2022, dos R$ 345 bilhões previstos em tecnologia de transformação digital, apenas R$ 2,5 bi seriam direcionados para essas aplicações. “Estes números comparados parecem muito modestos”, observa Sérgio Galindo, diretor executivo da entidade.Força de trabalho
De acordo com o AI Index, o Brasil foi o segundo país com maior crescimento na contratação de profissionais lidando com a tecnologia no período entre 2015 e 2019, atrás apenas de Cingapura. Em seguida vêm Austrália, Canadá e Índia. “Talvez a gente não tenha a formação suficiente, número de pessoas suficiente para atender à demanda”, pontua o cientista de dados da startup Semantix Alexandre Lopes. Segundo dados da Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação (Brasscom), o setor de tecnologia da informação deve demandar 420 mil novos empregos entre 2018 e 2022. Deste total, contudo, apenas 1,8% seriam em projetos de IA. A prioridade atual no mercado, conforme indicou a pesquisa, é a contratação de programadores de aplicativos em dispositivos móveis, como smartphones.Experiências
Um dos segmentos com adoção mais avançada da IA é na relação com clientes. Serviços de atendimento de diversas empresas passaram a funcionar com robôs de conversa, ou chat bots, para receber as demandas, fornecer respostas e somente repassar a um atendente em casos em que os sistemas não conseguiram resolver. Diversos bancos lançaram assistentes virtuais, como o Bradesco (Bia), Itaú (AVI), Inter (Babi), Banco Central (Din). De acordo com o Bradesco, seu assistente virtual possuía em 2019 uma taxa de resolução de 95%. Na saúde, a IA vem permitindo avanços na área de diagnóstico e na realização de procedimentos médicos. Em 2016, o Brasil tinha 30 robôs auxiliando cirurgias no Sistema Único de Saúde (SUS). “Há óculos que podem projetar uma imagem de cirurgia e com isso um médico participar de uma mesma cirurgia. Há luvas que já evitam que um médico trema por um motivo ou por outro. Tem análise de imagem já feita de forma automática. A máquina analisa com bons resultados para tratamento de câncer”, elenca a professora Rosa Vicari, da UFRGS. Outra área em que a IA vem crescendo é no direito. Partindo da capacidade de compreensão de textos escritos, sistemas passaram a ser utilizados em análises de processos. O Supremo Tribunal Federal (STF) criou um projeto denominado Victor para exame de casos de repercussão geral, como parte de seu programa de transformação digital. Segundo a corte, verificações que levavam cerca de 45 minutos por funcionários do Tribunal passaram a ser processadas em cinco segundos pelo sistema. “Essa ferramenta promete trazer maior eficiência na análise dos processos com economia de tempo e recursos humanos, além de ter potencial de atuação em todo o Judiciário brasileiro”, declarou o presidente do STF, Dias Toffoli, em palestra sobre o tema realizada em Brasília, em outubro de 2019. A Petrobras contratou a Microsoft para utilizar IA nos programas de segurança no trabalho, para funcionários atuando em navios-sonda ou em plataformas. Por meio de análise de imagens, o sistema identifica se equipamentos de proteção estão tendo uso adequado. O programa também consegue por meio de imagens conferir se há algum tipo de obstrução de rotas de fuga. “São ambientes críticos e qualquer acidente que ocorrer pode causar risco. Se a gente tiver qualquer rota de fuga, por carga mal posicionada. Isso pode impactar vida de pessoas”, comenta João Thiago Poço, da Microsoft. As companhias oferecendo soluções no mercado podem tanto ser segmentadas quanto trabalhar com aplicações diversas. No primeiro grupo está a startup Car10. A plataforma dela permite que o cliente tire foto de uma batida de carro, enviando uma estimativa de orçamento. Caso a pessoa fique interessada, pode solicitar uma proposta oficial, que será enviada em até 30 minutos, sem a necessidade de ir até o local para uma avaliação. No segundo grupo está a Semantix, startup criada a partir do polo tecnológico da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Entre os produtos comercializados está um sistema para padronizar laudos médicos, corrigindo erros, outro para organizar rotas de transporte de cargas em rodovias para otimizar o tempo e os gastos com combustível, uma plataforma para gerir a parte de análise de dados (big data) com segurança e uma solução de detecção de fraudes em vídeo. “Quando uma pessoa vai abrir uma conta no banco, você precisa mandar um vídeo para eles mostrando seu documento. Nós automatizamos este processo, conseguindo fazer identificação se a pessoa é ela, se o áudio condiz com o texto proposto e se o vídeo é gravação de outro vídeo ou está usando uma máscara”, explica Alexandre Lopes, cientista de dados da Semantix.Pesquisa
Desde o último ano, novos centros de pesquisa vêm sendo criados a partir do incentivo do governo federal. O maior será o da Universidade de São Paulo, em parceria com a IBM e com outras organizações, como o Instituto de Tecnologia da Aeronáutica (ITA), a PUC SP e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O laboratório receberá R$ 4 milhões por ano para financiar estudos a serem desenvolvidos por mais de 120 pesquisadores. Entre as linhas de pesquisa estão o processamento de linguagem natural em português e métodos de aprendizado de máquina. Mas também haverá investigações relacionadas à área de humanidades. “Vamos procurar fundamentos para avaliar políticas públicas”, conta o coordenador, Fábio Cozman, professor titular da Escola Politécnica da USP. Entre as pesquisas, haverá aplicações direcionadas a setores considerados prioritários em razão do contexto socioeconômico brasileiro: saúde, agronegócio e meio ambiente.Créditos (Imagem de capa): FOTO DE ARQUIVO: Um trabalhador usando uma máscara facial limpa o chão, perto de um robô Baidu AI que mostra uma máscara facial em sua tela, na sede do Baidu em Pequim, após o novo surto de doença coronavírus (COVID-19), China, 18 de maio de 2020 . REUTER