Captação de órgãos para transplante diminuiu no ano passado por conta da pandemia, mas ganhou força em 2021, apesar da alta taxa de recusa dos familiaresDois mil e vinte foi um ano difícil para quem esperava na fila por um órgão. Em meio à pandemia do novo coronavírus, os transplantes no Espírito Santo sofreram uma redução de 39% quando comparado ao ano anterior. Foram 447 procedimentos em 2019 e apenas 273 em 2020.

O ano de 2021, entretanto, traz esperança. Segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), foram realizadas 270 cirurgias entre janeiro e agosto no estado. Um aumento de 67% em comparação aos 161 transplantes no mesmo período de 2020. 

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Uma das razões para a maior agilidade na fila do transplante em 2021 foi a queda de 10% na recusa familiar em relação a 2020. Mesmo assim, a taxa continua alta em 2021. No Espírito Santo, 48% das famílias optam por não doar os órgãos dos entes queridos que perderam. “Nossa meta é reduzir essa taxa para 25%”, conta Maria dos Santos Machado, coordenadora da Central Estadual de Transplantes do Espírito Santo (CET-ES). 

No Brasil, a taxa de recusa em 2020 foi de 37,2%, segundo dados do Ministério da Saúde. Já a Espanha, país considerado modelo na área de transplantes, teve uma taxa de recusa familiar de 12,9% em 2017, de acordo com a Organização Nacional de Transplantes (ONT) do país. A lei espanhola determina que todos são, presumidamente, doadores, a menos que em vida tenham manifestado intenção contrária. No Brasil, já tramitam no Congresso projetos de lei em favor da adoção do consentimento presumido no Brasil.

Mitos alimentam taxa de recusa

Karla Coelho, enfermeira referência da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT) no Espírito Santo, é quem faz a abordagem aos familiares após o falecimento do paciente para oferecer a possibilidade de doação. “Doar é um direito e é um ato de solidariedade. O hospital tem o dever de oferecer essa possibilidade. É um momento de dor e a possibilidade é oferecida junto com um acolhimento dessa dor”, explica. 

“Primeiro, o médico dá a notícia do óbito, conversa com a família e tira as dúvidas. A abordagem sobre a doação é feita posteriormente com a presença de um psicólogo e de um assistente social, além do médico e da enfermeira”, esclarece. Um doador falecido pode salvar a vida de várias pessoas. Ainda assim, a decisão para os familiares não costuma ser fácil. Mesmo com a morte encefálica declarada, as pessoas têm dificuldade de aceitar que o familiar se foi. Doar os órgãos é compreender que a morte, de fato, aconteceu. Outras razões para a recusa são crenças religiosas, a não compreensão de que a morte encefálica é irreversível, o desejo de sepultar o corpo íntegro e até o medo do comércio de órgãos.

A coordenadora da Central Estadual de Transplantes (CET-ES), Maria Machado, explica que a morte encefálica é um quadro irreversível, mesmo que o coração esteja batendo e que o corpo do paciente esteja quente. “Se há morte cerebral, o coração continua batendo com a ajuda de aparelhos e medicamentos, mas o paciente não está mais vivo. É diferente do coma, que pode ser reversível. No coma, há alguma atividade cerebral”.  

Machado destaca, ainda, que o protocolo para declaração da morte encefálica é rigoroso e não é passível de erros. “São feitos dois exames clínicos por médicos diferentes e capacitados. Além disso, é feito o teste de apneia e gasometria. Por fim, é feito um exame de imagem”.

Ela ainda esclarece que o medo de o corpo ficar desfigurado após a doação é infundado. “Trata-se de uma cirurgia. Só são retirados os órgãos que serão doados. Os demais permanecem. Fica apenas a cicatriz do esterno ao umbigo. No caso de doação de córneas, são colocadas próteses de globo ocular. Não é possível perceber durante o velório que a pessoa doou órgãos. A família pode ficar tranquila quanto a isso. Há muita dignidade na doação”.

O medo do comércio de órgãos também preocupa algumas famílias. Maria Machado explica que o Brasil tem regras muito rígidas para coibir essa prática. Quanto ao mito de que as pessoas ricas não ficam na fila do transplante, ela destaca que não há prestígio ou preferências na espera. “Na fila do transplante, dinheiro, cor ou posição social não influenciam em nada”.Outra dificuldade que os parentes enfrentam é o curto tempo para tomar uma decisão. O órgão com menor tempo de isquemia (prazo para retirada do órgão e transplante em outra pessoa) é o coração. O transplante tem que ocorrer em até quatro horas. O maior tempo de isquemia é o do rim, que pode esperar 48 horas para ser transplantado.

Com o tempo curto e as circunstâncias dolorosas, saber de antemão a vontade da pessoa facilita a decisão familiar. “A decisão é muito mais leve se o potencial doador expressou em vida o desejo de doar. Se a família fica em dúvida, perguntamos como era aquela pessoa, o que ela gostaria que fosse feito. Não há tentativa de convencimento. A família tem total liberdade de escolha. Não há qualquer tratamento diferente caso os parentes não optem pela doação”, explica a enfermeira do CIHDOTT, Karla Coelho. 

Quem pode doar

Até 2002, a Lei 9.434/1997, que regula a doação de órgãos no Brasil, presumia que todo brasileiro era doador. Era preciso manifestar-se em contrário caso não houvesse o desejo de doar. O código foi reajustado em 2002. Hoje, a família tem a palavra final, acima até do falecido. Por isso, é tão importante que ela fique avisada. Foi o que a fisioterapeuta Mirelly Roncette fez. “Doar órgãos salva vidas. Eu sou doadora de órgãos, pois posso imaginar a dor e aflição de uma família que precisa de uma doação para salvar a vida de um ente querido e não consegue encontrar”, disse. 

“Se eu puder, de alguma forma, ajudar pessoas passando por essa situação, não pensarei duas vezes. Eu e meu irmão somos da área da saúde e vemos a aflição de pessoas nessa situação todos os dias, o que reforça ainda mais nosso desejo”, revela a fisioterapeuta.  

A técnica de enfermagem Luma Patricia Sesma também vê no seu dia a dia a importância que tem um órgão para uma pessoa necessitada. “Se fosse eu, ia gostar de poder ter mais tempo de vida ao lado da minha filha e minha família”.

Ela conta que a família ficou receosa quando foi informada da sua decisão de ser doadora, mas que os obstáculos foram superados. “No início, minha família não aceitou, pois não entendiam. Depois aceitaram a ideia e entenderam o quanto é importante. As pessoas se inspiram quando digo que sou doadora e algumas já se declararam doadoras”

Doação em vida

Vale lembrar que a pessoa viva também pode ser doadora. É possível doar rim, parte do fígado, parte do pulmão e a medula. O processo para ser doador é muito rígido para impedir o comércio de órgãos e também evitar que o doador se arrependa.

A coordenadora da CET-ES, Maria Machado, esclarece que, pela lei, o doador vivo tem que ter vínculo até quarto grau ou ser cônjuge do receptor. “Não parentes só podem doar com autorização judicial”. 

O processo envolve várias etapas: primeiramente, a equipe de transplante avalia o receptor e o doador e orienta sobre todo o procedimento cirúrgico. Então, o caso é remetido à comissão de ética do centro transplantador. Se o parecer for favorável, a comissão pede que o doador solicite autorização judicial para a realização do transplante.

Se a Justiça autorizar, o centro transplantador envia toda a documentação para a Central Estadual de Transplantes (CET-ES), que entra em contato com o doador e agenda a primeira entrevista. Após o primeiro encontro, o doador retorna em 30 dias para uma nova entrevista. Então, a Central Estadual de Transplantes envia o parecer para o centro transplantador, que agenda a cirurgia com base em todas as autorizações. 

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