Carência de profissionais para acompanhar pacientes implantados no estado foi um dos gargalos apresentados em reunião da Comissão de Assistência SocialConforme dados do Hospital das Clínicas de São Paulo, mais de 8 mil pessoas no Brasil se beneficiam hoje do implante coclear, aparelho eletrônico digital utilizado para restaurar a função auditiva nos pacientes com surdez severa a profunda. Para falar sobre a utilização do dispositivo no Espírito Santo, a Comissão de Assistência Social da Assembleia Legislativa (Ales) recebeu nesta quarta-feira (25) especialistas da área e pacientes implantados.

O Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes (Hucam/Ufes) é uma das referências em implante coclear no estado. Ativo desde 2018, o Programa de Implante Coclear da instituição é coordenado pela fonoaudióloga Carmen Barreira Nielsen. A especialista acredita que o Espírito Santo avançou muito nos últimos anos, mas avalia que a rede de apoio precisa ainda evoluir muito, especialmente na questão da reabilitação dos pacientes.

Publicidade Publicidade

“A rede é bem extensa, de acordo com a complexidade e todos esses pacientes que são identificados com deficiência auditiva e precisam do tratamento, seja ele através do uso da alta tecnologia de aparelho auditivo ou do implante, ele vai chegar num funil único, que é onde está o nosso gargalo, que é a reabilitação”, explicou a médica.

Acesse as fotos da reunião

A pós-doutora em Audiologia também observou que a tecnologia é muito bem-vinda, mas disse que os pacientes precisam ser acompanhados para um uso efetivo dela. “A tecnologia por si só, se ela não for ensinada a usar, se não for trabalhada, ela pode se tornar apenas um brinco na orelha dessas crianças. Então a gente chega num denominador comum, tanto pra usuários de aparelhos auditivos, como de implante coclear que é a reabilitação”, reforçou.

A coordenadora disse que é preciso ter uma rede capacitada para o tratamento correto, mas que o acesso a ele também é um desafio. Por conta disso, a possibilidade de o paciente implantado ser acompanhado por um especialista acaba sendo um fator fundamental na indicação para o implante. “Ter um reabilitador na cidade de origem é também um critério para recomendação deste paciente à cirurgia”, afirmou.

Acompanhamento

A gerente de Políticas para a Pessoa com Deficiência, da Secretaria Estadual de Direitos Humanos (SEDH), Carline Santos Borges, reconheceu que o Estado ainda tem muito a progredir nesse aspecto. “A gente precisa ainda avançar na questão da habilitação e reabilitação. A gente vê, até por uma questão de estudos, a importância disso para a pessoa implantada”, disse.

A falta, especialmente de fonoaudiólogo, para realizar esse acompanhamento foi citada pela gestora. Carline explicou que esse problema é observado em todo o país, especialmente nos municípios do interior, já que a oferta de especialidades se concentra majoritariamente nas regiões metropolitanas. “Se a gente olhar também cursos superiores de fonoaudiologia ou de terapia ocupacional, são raras as instituições que ofertam esses cursos”, lamentou.

Já o presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Condef), José Carlos de Siqueira Júnior, falou sobre os prejuízos causados pela falta desse acompanhamento correto para pessoas com deficiência auditiva ou surdez. “Se o Estado não faz esse atendimento, está colocando em risco a questão da educação da pessoa com deficiência”, alertou.

A demora para um diagnóstico preciso acaba dificultando ainda mais a vida desse segmento. O presidente da Sociedade Editorial em Pesquisa e Educação em Libras (Socepel), José Onofre de Souza, lamentou que pessoas surdas ainda encontrem muita dificuldade de acesso ao especialista. “Tem municípios por aí que o paciente leva seis meses para ser atendido. A gente tem que acabar com isso. Vai ao centro de saúde, marca um clínico, marca um otorrinolaringologista, depois mandam ele ‘não sei pra onde’. A pessoa já é surda, já tem a situação pré-definida”, ressaltou.

O vice-presidente do colegiado e proponente da reunião sobre o tema, deputado Doutor Hércules (MDB), ressaltou a importância de se fazer cumprir os direitos das pessoas com deficiência, estabelecidos por lei. “Que a gente possa acionar o Ministério Público (MPES) para que ele exija que o direito do cidadão seja cumprido”, considerou.

Mudança de vida

Mas existem também os desfechos felizes, como é o caso do estudante Fellipe Grego, que conseguiu recentemente implantar o aparelho e teve a sua vida mudada. “Eu ouvia muito pouquinho, não conseguia entender nada que meus amigos estavam falando. Minha mãe lutou muito e agora que eu consegui colocar meu aparelho. Estou conseguindo ouvir tudo que vocês estão falando”, testemunhou.

Comentários no Facebook